segunda-feira, 28 de junho de 2010

mais Clarice, sobre o não-entender


"E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter inteligência e não entender. Era uma benção estranha como a de ter a loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.

Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro - preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era o não entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana."

(C.L. in Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, 1969, p. 43-44 - grifo meu)


Mamãe continua com aquele sorriso bobo por ler Clarice. Lhe fiz um desenho sobre o trecho acima:


Guarde bem o não-entender, Filho.

ps¹: o Rô, meu primo-irmão (porque eu já moro com ele há um ano e meio), disse que eu assinei "de cabeça-para-baixo, porque a cidade está sendo formada pelas gotas caem". Questão de ponto de vista, Filho.

ps²: Sim, tenho medo. Não sei se é saudável vir aqui e mastigar as palavras que mais gosto de cada livro que leio. Será que eu deveria apenas deixa-los numa estante para que um dia você mesmo mastigasse todas elas? Não sei.
(por isso gosto da tecnologia! se mudar de ideia, arranco esses posts daqui)



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